{"id":8905,"date":"2022-12-04T12:01:52","date_gmt":"2022-12-04T15:01:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iiede.com.br\/?p=8905"},"modified":"2022-12-04T12:01:52","modified_gmt":"2022-12-04T15:01:52","slug":"fernando-schuler-o-pais-dos-fanaticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iiede.com.br\/index.php\/2022\/12\/04\/fernando-schuler-o-pais-dos-fanaticos\/","title":{"rendered":"Fernando Sch\u00fcler: &#8220;O pa\u00eds dos fan\u00e1ticos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>O poder oferece a chance de cada um expandir sua personalidade<\/p>\n<p>Por Fernando Sch\u00fcler &#8211; Publicado em 3 dez 2022, 08h00<\/p>\n<p>A pol\u00edtica tem um lado doentio. O epis\u00f3dio da turma \u201ccomemorando\u201d a les\u00e3o de Neymar \u00e9 s\u00f3 mais um exemplo. No passado foi assim com a religi\u00e3o. Na verdade, muito pior. L\u00e1 por volta de 1553, na (hoje) civilizada Genebra, o grande Miguel Servet, te\u00f3logo e homem do mundo, foi queimado com lenha verde, lentamente, em uma fogueira, apenas por publicar um livro e discordar de Calvino em certos detalhes teol\u00f3gicos que hoje achar\u00edamos ris\u00edveis.<\/p>\n<p>Hoje em dia n\u00e3o colocamos mais ningu\u00e9m na fogueira (que eu saiba), e mudamos o foco: brigamos por pol\u00edtica, n\u00e3o por religi\u00e3o. Vibramos quando o jogador que votou no candidato que a gente n\u00e3o gosta sai mancando. Talvez urr\u00e1ssemos, se ele sa\u00edsse com a perna quebrada. N\u00e3o sei. Vi que Ronaldo Fen\u00f4meno fez uma carta se solidarizando com Neymar e perguntando que pa\u00eds \u00e9 esse em que algu\u00e9m n\u00e3o pode fazer sua escolha pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Uma jornalista respondeu dizendo que n\u00e3o era nada disso. Perguntava que diabos de direito \u00e9 esse de votar em um \u201cmonstro\u201d? Reli o texto, para ver se havia entendido bem. Infelizmente, sim. A l\u00f3gica era a seguinte: dado que pol\u00edtico que eu n\u00e3o gosto \u00e9 um \u201cmonstro\u201d, quem vota nele \u00e9 um monstrinho, certo? A partir da\u00ed, considera\u00e7\u00e3o zero. E ponto-final.<br \/>\nPoucas vezes vi um striptease t\u00e3o bem-feito de nossa alma autorit\u00e1ria. Algo que est\u00e1 longe de ser um problema deste ou daquele grupo ideol\u00f3gico. Al\u00e9m da turma descabida estacionada \u00e0 frente dos quart\u00e9is, assistimos, na mesma semana, \u00e0quela agress\u00e3o pat\u00e9tica a uma incr\u00edvel figura brasileira que \u00e9 Gilberto Gil.<\/p>\n<p>Houve gritos sobre a \u201cLei Rouanet\u201d, um palavr\u00e3o, coisa n\u00e3o muito diferente do que aconteceu com Rodrigo Maia, em um resort, com Ciro Gomes, em um aeroporto, e com tantos outros. Todos se lembram de Jos\u00e9 de Abreu cuspindo na cara de um casal ou das agress\u00f5es sofridas pela jornalista M\u00edriam Leit\u00e3o, em um voo, anos atr\u00e1s. Observar esses casos \u00e9 doloroso, e mais ainda \u00e9 a triste seletividade com que as pessoas encaram isso.<\/p>\n<p>Dia seguinte \u00e0 ofensa dirigida a Gil, o senador Randolfe Rodrigues protocolou um projeto criminalizando o \u201cass\u00e9dio ideol\u00f3gico\u201d. Quando vi aquilo, me veio \u00e0 mente a cena recente em que Regina Duarte \u00e9 hostilizada, chamada de \u201cfascista\u201d, e virtualmente expulsa de um teatro, tamb\u00e9m por causa de suas escolhas pol\u00edticas. Fiquei em d\u00favida se o senador acha que todas aquelas pessoas deveriam ser punidas, ou diria que, naquele caso espec\u00edfico, o lado certo era o dos assediadores, e que a assediada \u00e9 que merecia uma puni\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO fen\u00f4meno do \u00f3dio est\u00e1 em toda parte. Na campanha, tivemos o assassinato de um apoiador de Lula, por um apoiador de Bolsonaro, e muita gente quis ver naquilo uma tend\u00eancia. Semanas depois, aconteceu o oposto. Houve quem apostasse no \u201cveja, n\u00e3o \u00e9 bem assim\u201d, e, no geral, um sil\u00eancio constrangedor.<\/p>\n<p>Na realidade, h\u00e1 um \u201cefeito Eichmann\u201d no \u00f3dio pol\u00edtico. A refer\u00eancia \u00e9 ao oficial nazista executado em Israel, no in\u00edcio dos anos 60, e ao espanto de Hannah Arendt quando percebeu que aquele sujeito, respons\u00e1vel por tantas atrocidades nos campos de concentra\u00e7\u00e3o, era um tipo comum. Um burocrata, ocupando um lugar que milhares de alem\u00e3es poderiam ter ocupado, e n\u00e3o um \u201cmonstro\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO poder oferece a chance de cada um expandir sua personalidade\u201d<\/p>\n<p>O mesmo pode ser dito de nosso \u00f3dio banal feito de ofensas em avi\u00f5es, est\u00e1dios e cal\u00e7adas ou nas redes sociais. Da\u00ed a pergunta: por que as pessoas agem assim? Numa resposta r\u00e1pida: elas agem assim porque elas podem. Porque a tecnologia lhes deu poder para fazer isso. Uma luz sobre essas coisas vem do famoso experimento de Philip Zimbardo, em Stanford, nos anos 70. H\u00e1 um belo filme (The Experiment) contando essa experi\u00eancia. Zimbardo simulou uma pris\u00e3o, nos por\u00f5es do departamento de psicologia, e selecionou volunt\u00e1rios. Uma parte faria o papel de prisioneiros; outra, de carcereiros. Pouco tempo depois, os carcereiros estavam agindo com sadismo com seus prisioneiros.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma intermin\u00e1vel discuss\u00e3o sobre os m\u00e9ritos da pesquisa, mas uma coisa parece certa: ela diz respeito \u00e0 frase famosa de Abraham Lincoln: \u201cSe voc\u00ea quiser testar o car\u00e1ter de algu\u00e9m, lhe d\u00ea poder\u201d. O pr\u00f3prio experimento mostrou que as pessoas agiram de modos diferentes. Alguns foram especialmente s\u00e1dicos, outros n\u00e3o. \u201cO poder corrompe\u201d, escreveu o psic\u00f3logo americano Scott Kaufman, \u201cmas n\u00e3o a todos da mesma maneira.\u201d O poder oferece a chance de cada um expandir sua personalidade. Fazer o seu striptease. \u00c9 isso com Gil, com Neymar, com cada post, cada informa\u00e7\u00e3o que repassamos e a cada vez que fazemos uso do incr\u00edvel poder que a tecnologia nos deu, e que nos permite dizer a todo momento quem n\u00f3s somos.<\/p>\n<p>Isso tudo em um ambiente em que agir mal custa muito pouco. A migra\u00e7\u00e3o do debate pol\u00edtico para a internet nos colocou a todos em um grande experimento.<br \/>\nUm ambiente, como bem explicou a neurocientista inglesa Susan Greenfield, marcado pela baixa empatia.<\/p>\n<p>\u201cQuando ficamos muito tempo no computador\u201d, escreve ela, \u201cn\u00e3o vemos a pessoa ficar vermelha, engolir em seco. Quanto mais mergulhamos no ciberespa\u00e7o, menor a empatia.\u201d Isso tem a ver com uma antiga intui\u00e7\u00e3o de Adam Smith, em sua Teoria dos Sentimentos Morais: nossa capacidade de sentir empatia se move em c\u00edrculos conc\u00eantricos. Nos preocupamos primeiro com n\u00f3s mesmos e com os mais pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>Depois com nossos vizinhos, e s\u00f3 muito depois com os seres humanos em geral. Ent\u00e3o temos um problema: ganhamos poder para afetar a vida de pessoas que n\u00e3o passam de estranhos para cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>A pergunta relevante: o que cada um far\u00e1 com esse poder? Essas pessoas que gritaram para Gilberto Gil, que berraram nos ouvidos de M\u00edriam Leit\u00e3o, que vibraram com a tor\u00e7\u00e3o de Neymar, que cuspiram, que puseram o dedo na cara de Regina Duarte tinham todas a chances de fazer diferente.<\/p>\n<p>Exatamente como aqueles volunt\u00e1rios na pris\u00e3o de mentirinha do professor Zimbardo. E como naquele experimento, alguns decidiram agir como s\u00e1dicos, enquanto outros souberam preservar sua humanidade.<\/p>\n<p>Nesta semana participei de um \u00f3timo debate, em que tratamos desses impasses da democracia atual, da sociedade da raiva e tudo o mais, at\u00e9 que algu\u00e9m perguntou: \u201cE como vamos sair dessa?\u201d. Na hora, mencionei algumas reformas institucionais, falei do respeito a direitos, mas depois fiquei pensando. Reli alguns textos, revistei o experimento de Stanford, e me dei conta de que h\u00e1 um problema irredut\u00edvel a\u00ed, que reside no cora\u00e7\u00e3o humano.<\/p>\n<p>O fato simples que a democracia, no redemoinho de uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, n\u00e3o gira mais em torno de meia d\u00fazia de institui\u00e7\u00f5es, mas depende mais e mais do uso que cada um far\u00e1 com o poder que subitamente recebeu. Os acontecimentos recentes, quem sabe, podem nos lan\u00e7ar alguma luz, sobre isso, se estivermos dispostos a aprender.<\/p>\n<p>Fernando Sch\u00fcler \u00e9 cientista pol\u00edtico e professor do Insper<\/p>\n<p>Publicado em VEJA de 7 de dezembro de 2022, edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 2818<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O poder oferece a chance de cada um expandir sua personalidade Por Fernando Sch\u00fcler &#8211; Publicado em 3 dez 2022, 08h00 A pol\u00edtica tem um lado doentio. O epis\u00f3dio da turma \u201ccomemorando\u201d a les\u00e3o de Neymar \u00e9 s\u00f3 mais um exemplo. No passado foi assim com a religi\u00e3o. Na verdade, muito pior. 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